
Quando eu era criança, nas noites de verão de muito calor, eu costumava colocar uma toalha molhada sobre a cama para conseguir dormir melhor.
E quase sempre havia aquela escolha difícil: dormir com a janela fechada e enfrentar o calor abafado dentro de casa ou abrir a janela, deixar entrar um pouco de ar e, junto com ele, os mosquitos.
Nessa época eu não imaginava que, anos depois, essa experiência cotidiana se transformaria em uma pergunta de pesquisa.
O calor continuou fazendo parte da minha vida. Morei em lugares onde ele estava presente dentro de casa, nas ruas e na rotina. E foi durante a graduação em Engenharia Ambiental, ao estudar o fenômeno das ilhas de calor urbanas, que comecei a compreender que aquela sensação não era apenas uma percepção individual.
A cidade não aquece da mesma maneira em todos os lugares.
Vegetação, quantidade de áreas construídas, impermeabilização do solo, circulação dos ventos, relevo e diversas outras características do território podem fazer com que bairros e até áreas dentro de um mesmo bairro tenham experiências térmicas muito diferentes.
E essas diferenças também ajudam a revelar desigualdades.
Foi a partir dessa inquietação que comecei a pesquisar como o calor se distribui pela cidade do Rio de Janeiro e como determinados territórios podem estar mais expostos aos efeitos das temperaturas extremas.
Essa pesquisa deu origem ao estudo “Apartheid Climático na Cidade Maravilhosa”.
Mas, durante o desenvolvimento do trabalho, surgiu uma nova pergunta:
Se conseguimos identificar os lugares onde o calor tende a ser mais intenso, como podemos transformar essa informação em algo útil para quem vive nesses territórios?
Foi dessa pergunta que nasceu o YUNISS.

YUNISS nasce como uma releitura fonética de Eunice, em homenagem à cientista Eunice Newton Foote.
Em 1856, Eunice conduziu experimentos com cilindros de vidro preenchidos com diferentes gases expostos à luz do sol. Ela observou que o ar com dióxido de carbono aquecia mais e permanecia aquecido por mais tempo.
Foi uma contribuição pioneira para a compreensão da relação entre gases atmosféricos e aquecimento — base do que hoje entendemos como efeito estufa. Ainda assim, seu trabalho permaneceu por muito tempo pouco reconhecido.
Há uma cena de um documentário que ficou comigo: a filha de Eunice mexe nos materiais de experimentação e ela pede que não mexa. Uma cena pequena, doméstica, quase banal — e ao mesmo tempo, profundamente reveladora.

Existe ciência sendo feita no meio da vida.
Me identifico com essa experiência: conciliar maternidade, estudo, pesquisa e produção científica, entre uma tarefa e outra, entre o cuidado e a curiosidade.

Eunice olhou para algo que ninguém estava vendo. É exatamente esse o propósito do YUNISS: tornar visível aquilo que nem sempre está sendo visto.
O Rio de Janeiro pode ser uma única cidade no mapa, mas o calor não é vivido da mesma maneira em todos os seus territórios.
A forma como a cidade foi construída, a presença ou ausência de vegetação, a concentração de concreto e asfalto, a impermeabilização do solo, o relevo e a circulação dos ventos contribuem para criar condições térmicas muito diferentes entre regiões que, muitas vezes, estão separadas por poucos quilômetros.
Essas diferenças não são apenas ambientais.
Elas se encontram com desigualdades sociais já existentes e fazem com que determinados territórios e populações estejam mais expostos aos efeitos das temperaturas extremas.
Link para o artigo em breve.
Hoje, grande parte das análises térmicas urbanas se apoia em imagens de satélite, modelos meteorológicos, estações existentes e outras bases ambientais. São ferramentas essenciais: elas permitem enxergar a cidade inteira, comparar períodos e identificar padrões.
Ainda assim, cada uma tem seus limites de resolução — no espaço e no tempo. Microdiferenças de uma rua para outra, de uma encosta para uma várzea, nem sempre aparecem nesses dados.
Uma cidade tão diversa não pode ser representada por uma única temperatura.
Por isso, o próximo passo é ampliar as medições locais — complementando (e nunca substituindo) o que já é observado do alto:
O YUNISS foi criado para aproximar ciência, território e população.
Identificar historicamente as diferenças térmicas do território.
Incorporar progressivamente dados meteorológicos e medições locais.
Identificar condições de risco térmico para cada localização.
Transformar dados em informações e orientações úteis para a população.
A primeira estação meteorológica YUNISS será instalada na Mangueira e funcionará como projeto piloto para o desenvolvimento e validação da metodologia.
Mas uma única estação não é suficiente para representar uma cidade inteira.
Quanto mais conseguimos medir a cidade, melhor conseguimos compreendê-la.
Porque enfrentar o calor também significa entender que ele não chega da mesma forma para todos.